E foi realmente assim, que sem saber estrelar um ovo me vi incumbida da tarefa de cuidar do lar e por arrasto de um marido.
Foram tempos estupendos! Como o prédio ainda estava a meses da conclusão, a electricidade era, a bem dizer, roubada ao sacana do construtor! Como a hora da janta era uma espécie de hora de ponta cá no condomínio, não raras vezes lá se iam os fusíveis abaixo. Logo, a placa de vitrocerâmica fazia greve aos cozinhados e não tínhamos outro remédio se não abalar em demanda de um bom petisco….
Talvez por influência da gritaria nocturna das fedelhas dos vizinhos, não tivemos logo a ideia de aumentar o agregado, porém dois anos volvidos, começamos a sentir a falta de algo! Deitamo-nos a pensar no que poderia ser e, pliinnn… nove meses depois, num golpe de prestidigitação (numa maternidade bem perto de si…), sai uma filha fresquinha para alegrar o jovem casal!
Ora mal nos tinhamos livrado do mundo maravilhoso de biberões e respectivo fraldário, encostámo-nos outra vez e, pléééin… num novo golpe de mágica sai-nos uma segunda criança na rifa!!!
E que criança! Só os sustos que apanhei, faziam corar de vergonha um mero espectador do “Pesadelo em Elm Street”, e olhem que eu nem tive tempo de ruminar uma pipoca que fosse….
Assim de repente, e só para citar de cabeça, três episódios da sua ainda curta vida que me iam fazendo sofrer “A” apoplexia:
1º- A criança mais velha assiste alto e bom som o novo DVD da Leopoldina. O mais novo está comodamente instalado à espera do jantarinho ouvindo os gritos infernais da música do canal Panda. Estou mesmo a acabar de passar a pano e detergente o chão da imunda cozinha quando o petiz se levanta, dá um vira-cu monumental, guincha de dor e desmaia! Amigos! Dante, na sua descrição do Inferno, não teria conseguido imaginar tal cenário….O que fazer? Uma vozinha sussurra-me que o melhor é ligar o 112, pego no telefone e no meio de tamanho barulho lá vou esperando que me atendam. No preciso segundo que me atendem, o miúdo volta a acordar e continua no mesmo chinfrim que estava antes do desmaio. Já estão mesmo a ver que precisava de quatro orelhas para resolver a coisa! Depois de uma ida ao hospital e consequentes exames, regresso a casa jurando nunca mais zelar tanto pelo lar.
2º- Numa noite de jantar natalício patrocinado pela empresa do marido (e como são convenientes estes jantares em que os funcionários são proibidos de se fazerem acompanhar pelos cônjuges!!!), tive a lembrança de fazer aquele arrozinho de marisco (e que o marido é tão alérgico), convidando para o efeito a família da mana Ana! Primeiro servi a criançada. Seguidamente servi o cunhado e a irmã, e quando depois de duas horas de luta com os tachos e as panelas finalmente me sento para jantar, aparece-me o pirralho com a garrafa de detergente na mão, todo encharcado no peito, a dizer que queria vomitar. Ah pois queria, tenho a certeza que sim… já eu queria dar-lhe uma valente sova, mas não dei. Liguei para a linha anti-venenos que me tranquilizou assim que lhes disse que devia ter sido muito pouco, pois não havia muito liquido na garrafa. Nada que um iogurte e vigilância não resolvesse… E só para que conste, que já vos vejo a abanar a cabeça pela negligência, tinha sido a primeira vez que tinha deixado à mão o detergente.
3º e último (ufa!!) exemplo: Fui tirar duas fotocópias à papelaria, tão necessárias para a inscrição escolar. Levava 50 euros para pagar uma despesa de quinze cêntimos e para facilitar o troco à senhora peço que me faça um saquinho de gomas. Entrego o saco à minha pequenota e quando me viro para conferir o troco (relembro que era uma nota das gordas e que o troco ainda era considerável), ouço: -Mãe! Mãe! O Alexandre está engasgado! A verdade é que em dois segundos o menino ficava mais e mais vermelho! As senhoras da papelaria ficaram literalmente sideradas. Já eu, lembrando-me de uma conversa com a minha grande amiga e ex-companheira de blog, atrevo-me a fazer uma extraordinária manobra de Heimlich com tal sucesso que consigo fazer o miúdo cuspir as duas gomas que gulosamente tinha tentado engolir ao mesmo tempo!
E com esta me fico, relembrando os meus estimados leitores que se quiserem assistir à peça de teatro “Morra agora e pague depois”, poderão fazê-lo já este domingo. Aproveitem a sugestão, é barato e a gargalhada é garantida! E lembrem-se: a nossa Manu dá autógrafos!