Como Eu não Possuo

Poesia à Segunda

Olho em volta de mim. Todos possuem –
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da côr que eu fremiria,
Mas a minh’alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei… perco-me todo…
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo pra ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lôdo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse – ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!…

Castrado de alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo…
Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?…

*       *       *       *       *

Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor…
Como eu quisera emmaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos d’harmonia e côr!…

Desejo errado… Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim – ó ânsia! – eu a teria…

Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo de êxtases dourados,
Se fôsse aquêles seios transtornados,
Se fôsse aquêle sexo aglutinante…

De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destrôço até vencendo:
É que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.

Mário de Sá-Carneiro, in ‘Dispersão’

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Peregrinação a Fátima, pelo Caminho de Santiago

Caminhadas, Caminho de Santiago

Todas as grandes histórias começam com… “Era uma vez…” no entanto, esta começou com um convite / desafio lançado pelo Nuno para o acompanhar numa peregrinação ao Santuário de Fátima.

Já a tinha feito, no passado, calcorreando a berma da estrada, o perigoso IC. Apesar de ser uma experiência marcante do ponto de vista pessoal e espiritual, caminhar longas horas de mãos dadas com o perigo era algo que não queria repetir.  Propus então que a fizéssemos noutros moldes, pelo Caminho de Santiago. Ele aceitou. Estava na hora de descobrir o que o Caminho Português reservava do Porto rumo ao Sul.

Inicialmente, para recolher alguma informação baseei-me no site que mais utilizo para preparar os meus caminhos – Gronze – mas depois, quando entrei na busca mais fina de informação, encontrei no site da Associação de Amigos dos Caminhos de Fátima tudo que precisava para projetar as possíveis etapas.

Esta Associação disponibiliza informação sobre os vários traçados dos Caminhos de Fátima que poderá ser descarregado para o telemóvel, no entanto, não será necessário, atendendo a que todo o caminho está perfeitamente sinalizado! Têm ainda para “oferecer” uma bonita credencial dedicada em exclusivo ao caminho de Fátima e que pode ser adquirida online.

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Tudo arrumado na mochila, estamos prontos para partir… mais que coisas, vai carregada de sonhos…

Santiago

Porto (Sé) – S. João da Madeira – 37 km 

Enquanto rasgávamos a praça da Sé Catedral, em busca do nosso primeiro selo, sinto um arrepio a percorrer o corpo, a frescura matinal e a sombra provocada pela barreira que o Paço Episcopal forma, não deixando passar os, ainda tímidos, raios de sol ajudava a acentuar essa sensação, mas, no fundo, era mais um misto de emoção e regozijo pelo inicio de um novo caminho, desta vez, rumo ao Sul, até ao Santuário da Virgem Maria, mas pelos caminhos milenares de Santiago.

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O repicar dos sinos na torre da Sé provocou um reboliço nas aves que por ali andavam, gerando uma espécie de bailado no céu azul. Outras danças aconteciam sobre as pedras que cobrem o terreiro, onde turistas e peregrinos vão tomando o seu rumo. Desejos de bom caminho para uns, bons dias para outros. À nona badalada fez-se silêncio, somente interrompido pelas nossas passadas nas, gastas, pedras da praça.

Começamos por transpor o rio Douro para a outra margem pela Ponte Luis I, que melhor cenário poderia pedir para inicio de caminho? Será difícil ou é apenas o meu coração nortenho a falar! 

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A Avenida de Gaia nunca me pareceu tão longa, senti-a interminável! O Nuno ia entusiasmado, e eu, entusiasmado por ele e por mim. Em Canelas, uma paragem para subtrair a roupa que, agora, já parecia excessiva. Escolhemos um lugar emblemático para o efeito – junto ao memorial ao primeiro edifício publico de Canelas – Escola Primária de Pinheiro, construída em 1954.

Um par de quilómetros adiante cruzámos com o primeiro peregrino, primeira neste caso, que num inglês com sotaque de terras de Sua Majestade nos deseja boa sorte para o que havia de vir, nós retribuímos,  mas mal prosseguimos percebemos que por agora precisávamos de um pouco mais de sorte que ela… e de um pouco mais de pulmões… pese embora a inclinação, foi, neste dia, um dos poucos quilómetros em que nos sentimos rodeados de verde. 

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Já em Perosinho, um momento hilariante. enquanto fazia um registo para a posteridade de uma placa alusiva ao caminho de Santiago, um “canito”, apesar de todos os alertas, resolve ir fazer o seu cocó bem em frente da objectiva!!! 

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O dia avançava lentamente, o sol empinava e o calor abafava… Atracamos na Taberna Santo António, em Grijó, para molhar a palavra e fomos recebidos à moda de Espanha, com direito a “pincho”… carimbada a credencial prosseguimos até ao magnífico Mosteiro de Grijó.

“De acordo com a tradição, o primitivo mosteiro foi fundado em 922, no lugar de Muraceses por dois clérigos, Guterre e Ausindo Soares, vindo a adotar a regra e o hábito da Ordem de Santo Agostinho em 938.

No ano de 1112 foi transferido para a atual localização. A igreja do novo mosteiro foi sagrada em 1235 pelo então bispo da Diocese do Porto, D. Pedro (IV) Salvadores (1235-1247).

No início do século XVI o convento encontrava-se em ruínas e, em 1535, João III de Portugalautorizou sua transferência para a serra de São Nicolau, em Gaia (Mosteiro da Serra do Pilar). No entanto, nem todos os clérigos concordaram com a transferência e, desse modo, em 1566 o Papa Pio V separou os dois mosteiros.

Com o retorno dos monges a Grijó, diante da necessidade de reformas no edifício, a comunidade contratou, em 1572, o arquiteto Francisco Velasquez, então mestre de obras da Sé de Miranda do Douro, para desenhar o novo projeto. Dois anos depois, a 28 de junho de 1574, era lançada a primeira pedra do dormitório. Até 1600 estavam concluídas duas alas do claustro, o refeitório e a sala do capítulo. No entanto a construção da igreja arrastou-se por mais cerca de trinta anos, uma vez que a capela-mor só foi fechada em 1629.

No ano de 1770 o convento foi extinto, passando os seus bens para o Convento de Mafra.

fonte  |  Wikipédia

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Adiante fica o Albergue de peregrinos de São Salvador de Grijó, uma casa antiga à beira estrada, – a chave está na vizinha do lado. Atirou um senhor no café. Fomos até lá e pedimos para selar a credencial. Prosseguimos caminho…

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As grandes expectativas sobre o caminho começaram a gora-se à medida que os quilómetros iam sucedendo, o facto de ser um percurso muito urbano influencia a opinião, mas, lá iam aparecendo aqui e ali uns cenários para alegrar as vistas.

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O acumular de quilómetros nas pernas começaram a fazer-se sentir e o Nuno começou a, cada passo, ficar cansado de dar mais um passo… mas de bênção em bênção pelas inúmeras capelas e igrejas lá fomos subtraindo quilómetros à etapa.

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Em S. João da Madeira já eram visíveis e audíveis as dificuldades. Paragem no centro da cidade para descanso e alimentação, mas depois… aiiiiiiii… depois… quase foi preciso montar uma grua para o levantar e retomar o caminho.

Albergue, banho, jantar – tudo feito com algumas dores – o Nuno caiu no colchão e apagou!!! Sonhou até que durante a noite havia chegado um peregrino e esse havia subido para uma cadeira!!! Felizmente foi só uma alucinação do cansaço!!! O peregrino, era só um técnico da instituição que foi ajudar a regular o ar condicionado!!! 

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Albergue – Santa Casa da Misericórdia de S. João da Madeira

                    Rua Manuel Luis Leite Júnior, 777  –  +351 256 837 240

Preço – Donativo

 

Santiago

S. João da Madeira – Albergaria-a-Nova – 25 Km

Um novo dia começa…

Os olhos, apesar de “feridos” pela paisagem maioritariamente urbana do dia anterior eram a parte do corpo que se mexia com maior destreza e assertividade, até a voz, quiçá pela hora da alvorada, estava arrastada e quase imperceptível!!!

Saímos do albergue a andar pior do que alguns dos utentes do Lar da 3ª idade que nos acolheu!!! As dificuldades eram notórias no meu companheiro de viagem. Apesar dos queixumes e de quase atirar a toalha ao chão… um bom pequeno almoço e uma sessão de motivação feita por “eu próprio” lá o convenceu a caminhar uns quilómetros até os músculos aquecerem.

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À passagem pela vila de Cucujães, cucujo nome nos fez sorrir e fazer alguns trocadilhos, começou a ecoar, entre a estreita rua, uma verdadeira “grafonola” a debitar música popular portuguesa em altos berros!!! Pelo facto do relógio ainda não ter passado das oito da manhã, pelo facto de não haver sinal de festa e, pelo facto, de não se pressentir viva alma achamos tudo muito estranho, até que, por detrás de um pequeno quiosque emerge um veterano senhor, muito animado, que com a sua voz de rouxinol esganiçado solucionava tão caricato “mistério”. Fomos a rir durante vários quilómetros à conta da personagem e por momentos as dores foram esquecidas.

Continuamos por cenários de pouca beleza, interrompidos, aqui e ali, por bonitos elementos, como este, onde a Ponte de Salgueiro sobressai.

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“A ponte, junto à povoação do Salgueiro, que está sobre o rio Ul, situa-se em caminho transversal às principais vias de circulação de quem vem do lugar da Igreja para o de Vila Cova.

Dizem ser romana ou mourisca, todavia não o será, pois apresenta raiz medieval.

Baixa, de dois arcos de traçado inicialmente circular, deformados hoje pela pressão exercida perpendicularmente na parte intermédia que obrigou a linha medieval de cada vão a um desvio em direção à respetiva margem.

Só a parte inferior dos arcos é revestida de cantaria aparelhada, sendo o resto alvenaria, o que permitiu os movimentos de construção. Os pequenos talhamares veêm-se descolados pelo raizame dos arbustos parasitários.

Há bastantes siglas do tipo de outras pontes que são de uma época média a que corresponde o século XIV.

Devido ao seu estado de degradação, foi reconstruída no ano de 2000.”

fonte  |  cm-oaz.pt

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Até à localidade da Bemposta foram algumas as paragens, ou para falar com peregrinos, poucos, ou populares, não muitos mais!!!

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Gostei muito do percurso ao longo deste eixo habitacional da Bemposta, um concentrado de história na história do país.

“Segundo a tradição, a origem etimológica do seu nome provém de um grande pinheiro que existia junto à antiga estrada, no lugar da Areosa, debaixo do qual os passageiros descansavam. O nome Bemposta provém da sua airosa e elevada posição, de onde se abarca larga panorâmica sobre a Ria de Aveiro, desde Ovar até à Serra da Boa Viagem ou ainda até ao mar.

O Município da Bemposta, de fundação antiquíssima e ao qual o rei D. Manuel dera foral em 13 de Julho de 1514, foi extinto por decreto de 24 de Setembro de 1855. 

O maior interesse do património construído está no Cruzeiro do Pinheiro da Bemposta, Monumento Nacional, datado de 1604, com restauros posteriores. “

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Já se cheirava a Albergaria e apesar do telemóvel “dizer” que estávamos quase lá… caminhamos, caminhamos, caminhamos… e caminhamos um pouco mais (!), as dores acentuaram-se até ao ponto de num momento de “desespero”, perante o alcançar visual da placa que anunciava a “meta” e de uma paragem de autocarro deserta alguém atirou: – Estás a ver ali aquela paragem?! Vou-me sentar ali e não dou mais um passo. 

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Mentira, deu mais uns quantos, primeiro porque a paragem não tinha banco, depois, porque o albergue estava a 800 metros dali!!!

É excelente o espaço exterior que o albergue dispõe, o preço é igualmente bom, 10 euros, e com possibilidade de confeccionar uma refeição. No albergue há possibilidade de compra de alguns produtos. A alberguista, foi de uma amabilidade extrema. Um espaço de paragem que aconselho.

Albergue – Hostel / Albergue Albergaria-a-Nova 

                     EN-1, km 252,3, nº 66 – tel. +351 234 547 068 – E-mail: albergue@albergaria.eu

Preço – 10 € (Beliche) – tem outras opções a outros preços.

Dispõe de Cozinha, Zona de lazer, Sala de Convívio, Bar, Máquina de Lavar e Secar roupa.

 

Santiago

Albergaria-a-Nova – Águeda – 22 Km

Em contraste com os primeiros dias, esta etapa, foi marcada pela frescura e pelo cinzentismo.

Recuperadas as forças saímos em passo ligeiro, por uma zona de monte, o que parecia antever uma mudança de cenário… 

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Já fomos novos e vamos para velhos, o mesmo acontece em Albergaria, depois da Nova, sucede-lhe a Velha!!!

Aí chegados, Albergaria-a-velha, dia de festa na praça, fizemos uma paragem para um café e carimbar a credencial. Adiante fica o Albergue Municipal Rainha D. Teresa, o nome talvez derive do facto de ter sido neste concelho que a Rainha D. Teresa fundou a primeira albergaria para “pobres e passageiros” no século XII (!). Está instalado na “Casa dos Magistrados” atendendo que esta habitação e a contigua foram concebidas para serem a residência do Juiz Distrital e do Delegado do Procurador da Republica da Comarca de Albergaria-a-Velha.

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Abandonada a povoação e mais adiante um novo percurso de mato, onde tivemos uma aparição!!! Desenganem-se já os crentes fervorosos… esta era bem terrena e andava a tentar seduzir algumas almas!!! 

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Passagem sobre a nova ponte no IC2 que faz a travessia sobre o rio Vouga, à esquerda, (na foto é em frente) já sem serventia, as ruínas da velha ponte.

Hoje, ao contrário dos primeiros dias avistamos muitos peregrinos em direcção a Santiago. Nós, continuamos a ser os únicos em direcção ao sul!

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A Ponte Velha do Marnel foi um balão de oxigénio ao sufoco que a viagem se estava a tornar perante a falta de atractivos e dos quilómetros de alcatrão.

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A Ponte Velha do Marnel, também é conhecida como Ponte do Cabeço de Vouga.

Situada sobre o rio Marnel, afluente do Vouga, esta ponte de cinco arcos terá sido construída na primeira metade do século XIV, ficando então conhecida como «ponte nova do Marnel», o que sugere a existência de uma ponte anterior no mesmo rio. Esta ponte foi sofrendo reparações e reconstruções ao longo dos séculos.

Esta ponte fazia parte da chamada estrada coimbrã, estrada que ligava a cidade do Porto e o noroeste de Portugal à cidade de Coimbra, e que seguia de perto a velha estrada romana.

Encontra-se classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1956 .” 

fonte  |  wikipedia

Neste local bucólico, convidativo a momentos de contemplação paramos um pouco a observar os patos e as galinhas de água, a escutar o coaxar das rás e o trinar dos pássaros, uma verdadeira orquestra da natureza. Este momento de paragem carregou a bateria para a forte subida que tivemos de vencer adiante.

Pensávamos que seria um pedacinho de subida, mas, foi mais um Pedaçães (nome do lugar).

 

Até Águeda foi rápido, hiperbolicamente falando. Conseguimos escapar da chuva que acabaria por cair mal chegamos ao Albergue Celeste. 

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Sobre o albergue só posso dizer bem, pelo bom acolhimento por parte da colaboradora que nos recebeu, super amável e prestativa, pelas condições que oferece: cozinha, uma sala de estar, pelo quarto e pela limpeza geral. Tem na proximidade um café  e supermercado.

Ao contrário dos albergues anteriores mas na linha do que se havia passado hoje, este estava cheio de peregrinos das mais variadas latitudes. 

A nós calhou-nos partilhar quarto com um casal de portugueses, os únicos para além de nós que rumavam em sentido contrário à “corrente”!!! Já sabem como é esta coisa de peregrinos… sentados à mesa lá fomos falando das nossas experiências nos caminhos, de nós, do mundo e sei lá que mais… peregrino tem sempre muito para contar… e como tal a conversa fluiu até à hora do Zé Pestana chegar.

Albergue – Albergue de Peregrinos Santo António (Residencial Celeste)

Avenida da Misericordia, 713 (EN-1)  –  tel. +351 234 602 871

Preço – 12 € (Beliche) – tem outras opções a outros preços.

Dispõe de Cozinha, Zona de lazer, Sala de Convívio, Máquina de Lavar e Secar roupa, micro-ondas, frigorífico.

 

Santiago

Águeda – Mealhada – 26 Km

A primeira luz da manhã irrompe pela pequena janela do quarto, no pátio começam a deambular peregrinos, mais uma volta no saco cama e penso para comigo: – Só mais 5 minutinhos! A luz intensifica-se tal como o som que vem da cozinha… está na hora de levantar para mais uma jornada.

Saímos do albergue debaixo de um espesso manto cinzento… Sob o corta-vento a pele eriçava-se do embate com a frescura matinal, seguimos em sentido descendente até ao centro de Águeda. Nada de muitas falas que o acordar ainda não era pleno!!!

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A passagem pelo centro foi mesmo uma passagem, sem direito a paragem… seguimos caminho por um agradável parque onde os mais madrugadores já passeavam as suas bicicletas.

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Adiante, seguimos por uma via estreita ladeada por casas antigas… estamos em Sardão. 

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“No centro da povoação do Sardão, eleva-se a capela de Nossa Senhora da Guia do século XVII. Dentro, entre outras imagens a de Nossa Senhora com o Menino, da invocação de Nossa Senhora da Guia e de São Brás, ambas esculturas de pedra do mesmo século.”

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No final deste lugar e após cortar, a direito, a N1 iniciamos uma demorada subida de quase 1 km. O frio da alvorada já se tinha dissipado e o corta-vento já havia sido dispensado. Era tempo de fazer uma paragem, para um café e dois dedos de conversa animada com a proprietária do café Rasteiro. – “Ó filhos, ir carregada assim até Fátima?! Eu já lá fui com apoio, mas se fosse agora… metia duas cuecas, o porta moedas ao bolso e mais nada!!!”  (na próxima peregrinação parece uma ideia sensata para colocar em prática)

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Prosseguimos viagem, uma vez mais, por paisagens pouco prometedoras até à mais meridional localidade do concelho – Aguada de Baixo, onde paramos para uma foto ao Memorial, construído em 2014, comemora os 500 anos do foral atribuído a Aguada de Baixo pelo Rei D. Manuel I em 1514.

Em Avelãs do Caminho, uma paragem junto ao albergue de peregrinos para um carimbo, no entanto, como ninguém estava por lá, seguimos caminho na busca de um outro ponto de “carimbage”.

O Nuno começava a acusar o desgaste da etapa e precisou de um impulso… para sair disparado como um… missil(e).

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O percurso pôs-se macio para facilitar o caminhar, mas, nem a passagem por um casal de peregrinos que transportavam as suas crianças num triciclo e os seus pertences noutro, nem, um outro, cuja pequena criança lá seguia junto aos progenitores alegremente transportando a sua mochila foram suficientes para “alegrar” os pés do Nuno!!!

Era preciso outro míssil, mas por agora, não tínhamos munições… bebemos água para afogar as mágoas!

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Quase a atirar a mochila para um fontanário que se colocou no caminho e perante uns fantásticos bancos de jardim o Nuno lança um, novo, ultimato:

– Vou parar aqui.

Mas estamos quase a chegar, digo eu.

– Já disseste isso à dois quilómetros atrás. – responde ele. Acrescentou – No próximo natal já sei o que te vou dar. Um telemóvel. mas daqueles que fazem a medição dos quilómetros como deve ser!!!

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Ainda não se tinha sentado e olhando em frente lá estava o albergue!!! Uma situação hilariante às portas do albergue Hilário.

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Mais descansados, fomos comer a tradicional sandes de leitão com outros peregrinos que seguiam para Santiago e com os nossos amigos portugas, a Andrea e o TóZé, com os quais haviamos pernoitado em Águeda.

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Albergue – Albergue de Peregrinos Hilário

                      Avenida da Restauração, 30  – tel. +351 914 437 715

Preço – 10 € 

Não dispõe de Cozinha mas a poucos metros tem vários locais onde é possível comer algo, tem um tanque para lavar roupa e para secar não falta espaço… 

 

Santiago

Mealhada – Coimbra – 27 Km

O sono foi interrompido por um barulho quase mudo dos peregrinos que rumavam a Santiago, um húngaro e um português que haviam pernoitado no albergue e com os quais ainda dividimos umas cervejas na noite anterior.

O dia estava cinzento e a previsão de chuva feita pelos senhores da meteorologia parecia que se iria  cumprir!!! Despedimo-nos dos nossos companheiros portugueses e marchamos. 

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Depois de passado a zona mais central, entramos numa outra de campos verdejantes e, pela primeira vez, senti-me envolvido pelo caminho…

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Primeiro uma pinga, depois outra e já não havia forma de não dar uso à capa de chuva… chegou mansinha mas foi gradualmente aumentando a intensidade à medida que a jornada avançava. À boleia da maré lá fomos deambulando por estradas mais ou menos desertas e bosques mais ou menos fascinantes…

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Saídos de um monte envoltos numa aura de natureza e perfumados a pinheiro e eucalipto somos atirados para a poluição, a berma de uma estrada bastante movimentada, 500 metros de puro terror, chuva, camiões a grande velocidade. A capa a esvoaçar para todos os lados, salpicos da passagem dos automóveis… felizmente chegamos “rápido” a Sargento-mor!!! Aqui, por uma estrada paralela ao IC onde o movimento é outro tudo parece melhor.

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A chuva deu tréguas, fizemos uma paragem para um café e algumas provisões numa mercearia. Quando regressamos ao caminho, regressou a chuva!!!

Entretidos com o colocar da capa e com os cumprimentos dumas senhoras que por ali se encontravam falhamos o caminho a seguir… Inicialmente estranhamos a ausência de setas azuis, depois estranhamos o facto de voltarmos a interceptar a estrada movimentada, o que não era suposto!!!

Lançados os dados voltamos à “casa de partida”.  Na passagem pelas senhoras diz uma:  -Eu até disse aqui à minha amiga que vocês iam pelo caminho errado, mas vocês já iam ali em baixo!!!  (O ali em baixo eram uns 10 metros, 20 que fossem… podiam ter gritado!!!) Bom, afinal foi apenas mais um quilómetro percorrido.

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Daqui em diante as paragens foram praticamente nulas não é que as pernas não pedissem, só que a chuva intensificou-se de tal forma que, por estarmos ensopados, seria grande o desconforto. Nem a máquina fotográfica saiu do aconchego do bolso.

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A aproximação a Coimbra foi penosa, um autentico diluvio que arrastava consigo as energias que ainda restavam, foi um lavar de alma. Os últimos quilómetros foram feitos em marcha lenta!!!

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Como por artes divinas a tempestade foi dando lugar à bonança, as nuvens foram dissipando-se e já no interior da cidade os primeiros raios de um sol tímido.

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O nosso dia iria terminar aqui e o caminho também. Havia, no entanto, semáforo verde para subir à Sé de Coimbra para recolher mais um carimbo.

“Constitui um dos edifícios em estilo românico mais importantes do país. A sua construção começou em algum momento depois da Batalha de Ourique(1139), quando Afonso Henriques se declarou rei de Portugal e escolheu Coimbra como capital do reino. Na Sé está sepultado D. Sesnando, conde de Coimbra.”

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Santiago

Coimbra – Zambujal – 29 Km

Volvida uma semana regressamos a Coimbra para completar a nossa caminhada até Fátima. Para que este corte temporal parecesse não ter existido, S. Pedro, presenteou-nos com uma chegada à cidade com uma chuvada valente, parecendo desta forma a continuidade do tempo da semana anterior! Felizmente à medida que íamos cruzando a ponte sobre o rio Mondego o tempo começou a mudar deixando adivinhar um bom dia de caminho.

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Após o atravessamento da ponte, à nossa mão esquerda, podemos contemplar o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha e, logo a seguir, o mui conhecido Portugal dos Pequenitos, adiante, no enfiamento do percurso apresenta-se o majestoso Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, para lá chegar há que vencer a primeira inclinação do dia sob as pedras gastas pelo tempo. 

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“O Mosteiro de Santa Clara-a-Nova, também designado como Convento da Rainha Santa Isabel.

Foi erguido no século XVII em substituição ao antigo mosteiro medieval de Santa Clara-a-Velha, vítima das inundações periódicas do rio Mondego. Era um verdadeiro mosteiro de clausura franciscana e não um simples convento.

Constitui-se em um importante repositório de arte portuguesa dos séculos XIV a XVIII e guarda as relíquias da Rainha Santa Isabel, fundadora do mosteiro antigo.”

fonte  |  wikipédia

Continuamos em sentido ascendente.

Quase a ficar sem fôlego, não pela subida, mas pelas vistas à passagem pela igreja da PALHEIRA. Desta “história” falarei mais adiante.

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Continuamos caminho por zonas rurais, áreas de mato onde a chuva do dia deixou a terra bem macia e obrigou a uma espécie de jogo “salta pocinhas” para evitar molhar os pés.

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A paisagem era agradável à vista e neste entretimento dos sentidos e de umas boas risadas com o Nuno o dia lá foi passando da melhor maneira.

Num ápice chegamos a Conímbriga, por sorte era domingo, por sorte éramos portugueses e por sorte éramos residentes em Portugal, logo não pagamos a visita, por sorte.

Um carimbo na credencial e partimos à descoberta deste rico pedaço de história…

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“A antiga cidade romana de Conímbriga é um dos sítios arqueológicos mais ricos de Portugal.

Um dos sítios arqueológicos mais ricos de Portugal, Conímbriga teve origem num castro celta da tribo dos Conii, nos finais da Idade do Ferro. Ocupada pelos romanos a partir de 139 a.C. e a sua população totalmente romanizada, foi sob o imperador Augusto, no séc. II d.C. que a cidade conheceu o seu esplendor, tendo sido construídas então termas públicas e um Forum, cuja reconstituição se pode ver no Museu. 

Com o declínio do Império nos finais do séc. IV, foi elevada uma monumental muralha defensiva, o que não impediu o assalto da cidade pelos suevos, em 468 e o consequente declínio de Conímbriga, que se foi desertificando e os habitantes que restaram deslocaram-se para Condeixa-a-Velha, mais a norte.

As grandes escavações levadas a cabo ao longo do sé. XX revelaram um valioso e complexo conjunto de edifícios, incluindo termas, um aqueduto que percorre mais de 3.400 metros desde a fonte, e restos de uma basílica cristã, provavelmente do séc. VI. 

O visitante não deixará de maravilhar-se à vista das casas nobres que conservam magnífico chão em mosaicos polícromos, destacando-se a casa de Cantaber, residência típica do séc. III e uma das mais amplas em todo o mundo romano ocidental e a casa dos Repuxos, com uma área de 569 m2 pavimentada de mosaico, ornamentada com vistosos quadros que ilustram temas mitológicos e do quotidiano, onde um peristilo central ajardinado e com jogos de água o tornam único.”

fonte  |  www.visitportugal.com

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Regressados ao caminho iniciávamos um dos troços que mais gostei desde o Porto. A paisagem é belíssima como podem confirmar pelas fotos…

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Paralelos ao Rio de Mouros que por estes dias corria com vigor, mas que grande parte do ano se encontra seco, seguimos até ao lugar de Poço. 

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Na passagem, à esquerda do caminho, uma pequena ponte – Ponte Filipina.

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“Aí, além de outros pontos de interesse, podemos ver a Ponte Filipina, sobre o rio dos Mouros, também designado por Rio Pau e “Caralium Secum”, na Idade Média e, ainda por Ribeira de Alcalamouque e Rio Ega. É uma pequena ponte, bem ao jeito do leito, que é preciso atravessar (no Verão, nem seria necessária, dada a ausência de água), remontando à época dos Filipes! Se, em pleno Estio ela não seria necessária, o mesmo não acontece, em épocas de pluviosos e rigorosos invernos. Nessas alturas, e já nos inícios da Primavera, o curso de água cobre-se de pequenas flores brancas, dando-lhe um encanto especial. Fica o registo, para quem goste de fugir ao bulício citadino e “ouvir o silêncio”, onde menos se espera.”

fonte  |  www.oponney.pt

… rumamos depois em direcção ao Zambujal onde iria terminar a nossa etapa de hoje, mais concretamente, na Casa das Raposas.

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Literalmente em cima do caminho estava o alojamento que nos iria acolher, Lara e Sérgio, foram uns bons anfitriões. A habitação é muito acolhedora e disponibilizam alguns mimos, café, chá, umas bolachas. A envolvente é igualmente bonita mas não tivemos oportunidade de calcorrear aqueles caminhos porque logo após a nossa chegada, o mau tempo abateu-se sobre a região.

Um final de dia e uma madrugada chuvosa para embalar uma boa noite de sono. 

Albergue – Casa da Raposa (Zambujal)

Tel. 965 006 277

Preço – 40 € 

Podem solicitar a confecção da refeição – 10 € por pessoa

 

Santiago

Zambujal – Albarrol – 27 Km

Depois de uma noite muito bem dormida e com o corpo descansado levantei-me mal o despertador do telemóvel soou… eram sete horas da manhã. A noite foi de chuva intensa e ao abrir a janela para avaliar as condições atmosféricas o ar frio da manhã trespassou-me o corpo como faca quente em manteiga.

Preparamos um chã e umas bolachas para aguentar os primeiros quilómetros de caminho até ao Rabaçal (4 Km), local onde encontramos o primeiro café e o Albergue “O Bonito” que, para aqueles que pretenderem na etapa anterior caminhar um pouco mais poderá ser uma excelente opção – ( Rua da Igreja – tel. +351 916 890 599) 

O Caminho desde a Casa das Raposas até ao Rabaçal é feito entre campos verdes e muita tranquilidade. Eu e o Nuno fomos conversando sobre como estavam as nossas forças e os momentos vividos até aqui… noutros momentos fomos em silêncio a contemplar a paisagens que o caminho nos oferece.

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O nome da localidade “Rabaçal” deriva do nome rabaça, uma fitotoponímia que significa campo de plantas vivazes da família das umbelíferas (rabaça), usada por vezes como tem­pero e própria de terrenos com águas correntes. Por estas andas o Queijo do Rabaçal destaca-se no plano gastronómico, sendo produto de origem protegida.

Fizemos uma paragem no café Bonito, o tal do albergue, para reforço do pequeno almoço e para carimbar a credencial. Bonita foi a espera para completar as intenções… o casal por detrás do balcão até tinham vontade, mas um grupo de peregrinos sentados numa mesa, com os seus pedidos a conta gotas lá foram “empatando” a nossa jornada!!!

Arrumados lá prosseguimos viagem… continuamos rodeados de bonitas paisagens e boas sensações.

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Depois de uma pequena paragem num, igualmente, pequeno parque de merendas, iniciamos uma pequena, mas dura, subida até Alvorge.

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“A primeira referência a Alvorge surge em 1141 num documento, onde D. Afonso Henriques doa em testamento a herdade de Alvorge e a sua torre, situada na Terra da Ladeia, ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.
O topónimo Alvorge, que significa pequeno forte ou torrinha, remete para a ocupação árabe existente neste lugar. A colonização cristã das terras da Ladeia (espécie de fronteira movediça, ora pertencente aos cristãos, ora aos mouros), onde se inclui Alvorge, teve início com D. Afonso Henriques que tinha o objetivo de alargar a fronteira portuguesa a sul. Para tal mandou construir, em 1142, o Castelo do Germanelo, dando-lhe foral, que determinava, que além de serem livres de impostos, concedia paz, perdão e isenção de justiça a todos que tivessem cometido crimes de homicídio ou de furto, sob a condição de se refugiarem nas terras do Germanelo e de as cultivarem. Assim, ficariam livres da ação da justiça.”

Esta localidade dispõe de um Albergue, mas os nossos planos levavam-nos mais além… No centro da povoação encontramos um casal vindos de Taiwan e seguiam para Santiago, uns minutos à conversa, uma selfie para a posteridade e… nova paragem, no café do Sr. Luis, para mais um carimbo e para matar o bichinho que estava a reclamar no estômago. 

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Quase de saída do café quando… irrompem café adentro o grupo de peregrinos que encontramos logo de manhã no café Bonito… e o momento foi bonito e bastante engraçado…

Um senhora, de estatura baixa, ao entrar no café foi logo fazendo os pedidos sem dar tempo a que os restantes se pronunciassem!!! – 5 Cafés por favor, atirou ela para o senhor atrás do balcão. Mas um “rebelde” achou por bem não aceitar a demanda!!!

– Não queres café?!! Queres o quê?! Uma cerveja?!…

– São então 4 cafés e uma cerveja…

Não sabemos como acabou a história, mas pela forma divertida da cena recomeçamos o caminho de sorriso de orelha a orelha e fomos ao longo do dia brincando com o momento sempre que parávamos num café ou bar, quer para carimbar a credencial, quer para descansar ou beber algo.

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Os quilómetros foram-se sucedendo a bom ritmo, nesta parte do caminho encontramos bastantes peregrinos estrangeiros, conversa com um, saudações a outros e nesta distracção chegamos a Ansião, localidade situada entre o rio Nabão e os maciços da Serra de Sicó.

 “A localidade de Ansião é ocupada desde tempos pré-históricos, apresentando registos memoriais e patrimoniais das épocas romana e árabe. Recebeu foral em 1142, e no ano de 1175 surgia referida pela primeira vez em documentação oficial. Porém, foi com a reforma administrativa do reinado de D. Manuel que, ao receber o seu segundo foral, Ancião iniciou um período de prosperidade que culminou com a elevação a vila por D. Afonso VI, já depois da Restauração.

No centro da vila pode visitar a Igreja Matriz, com o seu portal barroco, descansar na escadaria do pelourinho seiscentista, de onde apreciar o antigo solar dos Condes da Ericeira, que hoje alberga os paços do concelho, ou atravessar o Nabão percorrendo a Ponte da Cal. Não deixe de visitar o Complexo Monumental de Santiago da Guarda, situado no antigo palacete dos Condes de Castelo Melhor, que alberga a torre medieval que lhe está adjacente e uma villa tardo-romana dos séculos IV e V, cujos belíssimos mosaicos não deixarão, certamente, de o impressionar.”

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Inicialmente Ansião tinha sido o local escolhido como a meta para este dia, mas perante a inexistência de albergue publico na vila decidimos caminhar mais 2 km até Albarrol – Albergue ibon Ansião.

Durante o dia liguei para saber se havia disponibilidade para nos acolherem. Com resposta afirmativa, decidi inquirir se tinham um espaço para confeccionar uma refeição.

A resposta foi pronta – Jantam connosco, como família.

Questionei ainda: – Qual o valor da dormida e da refeição?!

A resposta marcou o meu dia e este caminho: – Dás o que o teu coração disser.

Até chegarmos ao destino tivemos que ultrapassar alguns obstáculos para não “sujar as patas”, senti-me uma espécie de cabra montesa, por cima de muros não muito estáveis! 

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Chegados à porta do albergue e perante o cenário ficamos um pouco… um pouco… um pouco… (acho que não encontro um adjectivo para enquadrar a nossa preocupação).

Resolvemos entrar para ver, à nossa espera estavam a Rose e o Steve, ela Filipina, ele inglês, e que foram uns excelentes anfitriões, desde logo, uma visita por todo o espaço circundante ao albergue onde estão a criar várias zonas que vão desde as estufas onde produzem produtos hortícolas, ao pequeno jardim das ervas aromáticas, à zona da piscina…

Depois, a indicação de tudo que precisávamos saber sobre o albergue, o banho, o pequeno almoço, etc etc, etc… já instalados e de banho tomado decidimos ir explorar as redondezas.

No regresso, lá vinha o tal grupo de peregrinos da manhã e da tarde, os tais “empatas” matinais, os hilariantes da tarde.  Abordei-os…

– Nós já nos conhecemos, ficam por aqui?

– Não, vamos ficar em Albarrol.

– Aqui é Albarrol, respondo. Este supostamente é o albergue.

Consegui ver nos rostos deles aquilo que terá sido a minha reacção à chegada!!!

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Entretanto Steve e Rose já estavam a preparar o jantar e que jantar… não faltou nada na mesa, alimentamos o corpo, mas também a alma com a amizade destes amigos que acabamos de conhecer.

Durante o repasto  Nuno faz um comentário sobre o facto de eu tirar fotos a todas as igrejas e capelas do caminho, ao que o Zé diz:

– Então tiraste à Igreja da Palheira.

Claro que sim respondo, enquanto inicio a procura na máquina! É esta, pergunto. Não, dizem-me. – E mais para a frente. Então é esta, contraponho. Não, é mais para trás!!! 

O Zé saca do telemóvel e mostra uma foto da ermida ao Nuno…

– É esta, lembras-te?!!! O Nuno desata a rir… lembro-me perfeitamente… ele disse que não tirava foto a essa porque a pala sob a entrada era demasiado feia!!!

Bem… a história não ficou por aqui, mas sobre a Palheira e a sua Igreja ainda havemos de voltar a falar.

A noite foi divertida, por entre boas gargalhadas das anedotas do Zé e as tiradas futebolísticas do Nuno e do João. A Belita só por si era uma animação e mais tarde chegou a Liliana para animar ainda mais o albergue com as suas tiradas!!! 

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O albergue demorou algum tempo a silenciar… mas o cansaço levou a melhor sobre todos.

Deste albergue irei sempre guardar boas memórias. A impressão que tive na chegada e que depois foi completamente ultrapassada pelo acolhimento, pela amizade e boa disposição dos anfitriões que, como diz o ditado, quem vê casas (caras), não vê corações. O divertido convívio com o grupo da Palheira, o carimbo que ficou gravado na credencial feito com borra de café e que de todos os que recolhi até hoje é o mais original.

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Albergue: ibon ansião

tel. + 0351 937576745

Preço: Paguei o que o meu coração mandou.

Tem um tanque para lavar a roupa e muito espaço para secar. Tem cozinha, mas acredito que eles mesmo fazem o jantar.

 

Santiago

Albarrol – Caxarias – 27 Km

Os primeiros raios de sol iluminaram a sala do albergue não conseguindo aquecer o ar gélido deixado pela madrugada… aos poucos vamos ficando aperaltados para mais uma jornada.

Depois do pequeno almoço saímos em grupo como se de um só se tratasse, a boa disposição do final do dia teve continuidade logo nas primeiras passadas.

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O percurso maioritariamente por zonas rurais permitia alguma descontracção na marcha e na mente… partilhamos experiências, vivências e rimos muito durante toda a etapa, nesta partilha de conhecimentos acabamos sempre por aprender algo

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Neste percurso tivemos tempo para um “mergulho olímpico”, dos joelhos para baixo, pois por muito engenho e arte que houvesse era impossível não molhar os pés!!!

Afinal era possível, mas só descobri isso adiante quando voltei a encontrar o João e o Rodrigo de sapatilhas secas!!! Mas para isso era preciso dar uma “gaaaaaanda volta”.

Com andamentos distintos rápido nos separávamos, para adiante, agruparmos novamente – parecia a marcha do elástico.

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Viemos de longe, do Porto carago, para encontrar a nossa rua!!! 

As madames encontraram o cenário perfeito para um retrato e posto isto um batalhão de paparazis sacaram as suas potentes máquinas telefónicas para registar o momento para todo sempre.

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Um pouco mais à frente instalou-se a dúvida na minha mente!!! Valongo?! Terei andado em círculos sem nunca ter saído de casa? Afinal parece que não… era a fome a falar mais alto!

O relógio da torre sineira da igreja do Fárrio marcava “hora de almoço”. Os nossos novos companheiros convidaram-nos a partilhar mesa com eles e nas traseiras da ermida montamos o acampamento para o repasto. Para quem não tiver a mesma sorte de encontrar almas boas, a cerca de 100 metros existe um café.

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A uma dezena de metros da igreja nova encontra-se edificada a antiga capela da localidade, na minha opinião, de linhas mais bonitas, no entanto, voltada ao abandono!!! E sobre ela encontrei a seguinte informação:

“Na localidade do Fárrio, encontra-se também a Antiga Capela mandada edificar pelo Padre Feliciano. A construção de uma capela no Fárrio era um desejo antigo da população local, por isso apresentaram a ideia ao Padre Faustino, Pároco da Freixianda, que recusou tal ideia. Foi já nos anos 40, que o Sr. Padre Feliciano lançou novamente a ideia da construção de uma capela, opinião que foi muito bem acolhida pelas gentes desta terra. Foi inaugurada no dia 01 de janeiro de 1949. Encontra-se neste momento num estado de abandono e degradação, à espera da sua recuperação.”

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Hoje, eu e o Nuno, tínhamos planos de ficar em Caxariais num albergue indicado no site dos amigos dos caminhos de Fátima, no entanto, na hora de almoço o tema surgiu à mesa, depois de explicarmos a nossa intenção, eles, amavelmente, convidaram-nos a pernoitar no centro paroquial de Caxarias. (Quis o destino que assim fosse, pois se tivéssemos seguido não encontrávamos o albergue que entretanto havia fechado!!!)

– O problema é que não temos colchões! disse.

Não foi problema. Num ápice desbloquearam a situação com um telefonema e à nossa chegada ao destino já havia uma esteira para dormir!!! 

O almoço estava óptimo mas o caminho chamava por nós…

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O final da etapa não prima pela beleza e as forças já não eram muitos, até para registos fotográficos…

…depois de banho tomado e já descansados montamos arraiais . Com a colaboração de alguns amigos deste grupo, lá apareceu a refeição, umas sopinhas e uma bifana, a sobremesa foram umas boas risadas entre dentes para não acordar os que já descansavam.

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Isto de pernoitar num espaço amplo com dezenas de pessoas tem muito que se lhe diga!!! A noite foi um autentico pandemónio de má educação!!! De madrugada a coisa parecia ir chegar a vias de facto entre dois grupos que por lá estavam, por momentos, questionei-me se estava a dividir o espaço com peregrinos ou com hooligans!!!

Onde dormir: Residencial Manalvo – tel. +0351 249574161

 

Santiago

Caxarias – Fátima – 24 Km

Hoje não posso começar o dia a dizer que foi uma noite bem dormida, que estava bem descansado e fresco como um alface… não… estava mais parecido com um repolho e os meus companheiros também… mas a noite mal dormida não esmoreceu a nossa boa disposição nem o entusiasmo da quase chegada ao santuário.

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Caxarias acordou debaixo de um manto de nevoeiro que conferia à paisagem a nostalgia que o último dia sempre traz. O fim de cada caminho é sempre algo agridoce, a satisfação da chegada em contraste com a tristeza de chegarem ao fim os dias de caminho.

Ultrapassada a primeira elevação do dia ficamos acima deste manto e foi possível contemplar um magnífico céu azul, o sol iluminava a paisagem pintando-a com as suas mais bonitas cores.

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Parte do dia dividi estrada com o João e nesta “fuga” fomos os primeiros a sentir o aroma a boa comida que, trazido pelo vento, veio ao nosso encontro e nos conduziu até ao acampamento montado ali paredes meias com o caminho.  

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Uma divinal sopa da pedra regada com um copinho… foi o tónico perfeito para que o cérebro dissesse às pernas para não andarem!!!

Mas como não podia ser, meio arrastado, prosseguimos debaixo de um sol abrasador. 

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As últimas rampas antes do Santuário são penosas… mas a força de vontade atenua a percentagem de inclinação das subidas.

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Com um par de centenas de metros ainda para andar já é possível avistar a Basílica, a emoção começa a tomar conta de todos.

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Muitos dos que aqui se deslocam fazem-no com o propósito de agradecer uma graça… e o chegar para esses é quase uma “obrigação”, o que faz com que a emoção se multiplique descontroladamente…

As lágrimas de alegria são comuns nestes momentos e hoje não faltaram à chegada. Todos tínhamos um propósito para ali estar e eu estava imensamente feliz por ter conseguido cumprir o meu e sobretudo feliz por o Nuno ter alcançado aquilo a que já algum tempo se havia proposto. Não fiquei indiferente à alegria destes amigos que dividiram o caminho connosco, pessoas simples, generosas e de um coração imenso… foi muito bom partilhar esta emoção com eles…

…é impossível não me emocionar mesmo quando a esta distância descrevo o momento.

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Chegamos mas o caminho ainda não havia sido concluído…

Voltemos à história da igreja da Palheira.

Por algum desígnio do destino não tirei foto à Igreja aquando da passagem pelo local e não me recordo de ter falhado qualquer outra igreja ou capela que estivesse ao pé do caminho!!! Por algum desígnio do caminho este grupo entrou em cena e quis o destino que me conduzissem de volta até lá para que completasse a “caderneta”.

Afinal, a pala é linda!!!

 

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Assim terminou mais um caminho, mais uma aventura… o caminho espera agora por vós! BOM CAMINHO.

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ASSIM QUE VI VOCÊ

Poesia à Segunda

assim que vi você
logo vi que ia dar coisa
coisa feita pra durar
batendo duro no peito
até eu acabar virando
alguma coisa
parecida com você

parecia ter saído
de alguma lembrança antiga
que eu nunca tinha vivido

alguma coisa perdida
que eu nunca tinha tido

alguma voz amiga
esquecida no meu ouvido

agora não tem mais jeito
carrego você no peito
poema na camiseta
com a tua assinatura

já nem sei se é você mesmo
ou se sou eu que virei
parte da tua leitura

In: RUIZ, Alice. Pelos pelos. São Paulo: Brasiliense, 1984. p.19. (Cantadas literárias, 24

Nó Cego, o Regresso

Poesia à Segunda

esta é a sombra, o rigor
do coração: nó cego, indesatável
por nevoeiro espesso
ou ténue gaze na distância.

uma obscura (translúcida razão?)
como papel de seda vibra
ou se amarfanha
surda, tu e eu poderíamos

rasgar a sombra intocável?
nenhum sentir distingue
seu intrincado músculo ansioso,
propulsor de sombras e sangue?

nenhum poder é transparente,
ileso? poderíamos?

Vasco Graça Moura

olá agosto

Aquilo qu`eu ovo, Uncategorized

Meu querido mês de agosto… 

que sejas um mês de boas temperaturas para as férias que se avizinham, que sejas um mês inspirador, coisa que tem faltado e que me mantêm um pouco afastado deste espaço… que seja um mês de de boas pedaladas e caminhadas, bons convívios, de boas bebidas refrescantes e de boas comidas… tudo isto ao som de uma boa selecção musical.

Um bom mês para todos e se for o caso, boas férias.

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Lena d’Água – Grande Festa  | Glockenwise – Dia Feliz  | Capitão Fausto – Boa Memória  |  Branko – Tudo Certo (feat. Dino d’Santiago)  | Terno Rei – Yoko  | Michael Kiwanuka – Cold Little Heart  | Trixie Whitley – Breathe you In My Dreams