Ode

Poesia à Segunda

Eis-me nu e singelo! 
Areia branca e o meu corpo em cima. 
Um puro homem, natural e belo, 
De carne que não peca e que não rima. 

A linha do horizonte é um nível quieto; 
As velas, de cansaço, adormeceram; 
E penas brancas, que eram luto preto, 
Perderam-se no azul de onde vieram. 

Sol e frescura em toda a grande praia 
Onde não pode haver agricultura; 
Esterilidade limpa, que não caia 
De pão e vinho a cósmica fartura. 

Dançam toninhas lúdicas no céu 
Que visitam ligeiras e felizes; 
Uma força sonâmbula as ergueu, 
Mas seguras à seiva das raízes. 

Nem paz, nem guerra, nem desarmonia; 
O sexo alegre, mas a repousar; 
Um pleno, largo e caudaloso dia, 
Sem horas e minutos a passar. 

Vem até mim, onda que trazes vida! 
Soro da redenção! 
Vem como o sangue doutra mãe pedida 
Na hora de dar mundo ao coração! 

Miguel Torga, in ‘Diário (1946)’ 

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Verdade e Mentira

Poesia à Segunda

Neste livro do mundo 
      Quase perfeito 
Preto e branco irmanados 
      De igual jeito 
Quem não foi a tribunal 
      Quem teve mão 
      Nos juízes da Santa Inquisição? 

Em menino te ensinaram 
Mentiras que a morte leva 
Para outra morte bem longe 
De pensares que outra contrária 
Com a tua se aglomera 
Neste livro de concórdia 
Só tem guarida o Infinito 
Por Giordano Bruno amado 
Como se fora seu filho 
Acima da besta fera 
Que na fogueira o lançava 
Aquela verdade brilha 
A morte à morte diziam 
Os que não adivinhavam 
Que era verdade a mentira 
Até o Mar se acomoda 
E paciente requebra 
Enquanto gritas à toa 
A tua verdade cega 
Conta as areias da praia 
O grande mago do mundo? 
      Só não mente quem não sente 
      Que o mistério não tem fundo 

Zeca Afonso, in ‘Textos e Canções’ 

Solidão

Poesia à Segunda

Eu tinha medo à solidão. Temia
encontrar-me comigo, frente a frente,
e resignar-me a viver contente
já que viver feliz eu não podia.
Queria à minha volta muita gente,
repartia em minutos o meu dia
procurando a ilusão duma alegria
que tanto desejara inutilmente.
Mas breve compreendi que a solidão
era não ter ninguém no coração,
e buscando outro fim para os meus passos,
eu fiz da vida um canto mais profundo
e, pouco a pouco, limitei o mundo
à reduzida curva dos meus braços.

Fernanda de Castro, in «39 Poemas», 1942