A Idealização do Amor

Poesia à Segunda

Eu estava a pensar na forma como se poderá entender o amor, à luz da minha formação. Da minha perspectiva, depende daquilo que o outro representa, se o outro é um prolongamento nosso, é uma parte nossa, como acontece muitas vezes, ou é uma idealização do eu de que falaria o Freud. No sentido psicanalítico poder-se-ia dizer que o amor corresponde ao eu ideal e, portanto, à procura de qualquer coisa de ideal que nós colocamos através de um mecanismo de identificação projectiva no outro.

Portanto, à luz de uma perspectiva científica, como é apesar de tudo a psicanalítica, o problema começa a pôr-se de uma forma um bocado diferente. Nesse sentido e na medida em que o objecto amado é sempre idealizado e nunca é um objectivo real, a gente, de facto, nunca se está a relacionar com pessoas reais, estamos sempre a relacionarmo-nos com pessoas ideias e com fantasmas. A gente vive, de facto, num mundo de fantasmas: os amigos são fantasmas que têm para nós determinada configuração, ou os pais, ou os filhos, etc.

(…) O amor é uma coisa que tem que tem que ver de tal forma com todo um mundo de fantasmas, com todo um mundo irreal, com todo um mundo inventado que nós carregamos connosco desde a infância, que até poderá haver, eventualmente, amor sem objecto. O amor não será, assim, necessariamente, uma luta corpo a corpo, ou uma luta corporal, mas pode ter que ver realmente com outras coisas, uma idealização, um desejo de encontrar qualquer coisa de perdido, nosso, que é normalmente isso que se passa, no amor neurótico, ou mesmo não neurótico. Quer dizer, é a procura de encontrarmos qualquer coisa que a nós nos falta e que tentamos encontrar no outro e nesse caso tem muito mais que ver connosco do que com a outra pessoa. Normalmente, isso passa-se assim e também não vejo que seja mau que, de facto, se passe assim.

António Lobo Antunes, in “Diário Popular (1979)”

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4 thoughts on “A Idealização do Amor

  1. Não estou totalmente de acordo. É normal procurarmos nos outros algum tipo de reflexo do que somos, mas a isso chama-se “afinidades”, creio eu. É também certo que, numa primeira fase de conhecimento – ou desconhecimento – se “idealize” o caráter do outro, ideais estes que nem sempre correspondem à realidade. Mas se, após determinado período de relacionamento, as pessoas continuam juntas, leva-me a crer que ambos se aceitaram como são na realidade, e não como gostariam de ser. 🙂

  2. também creio que sim… é uma visão já com alguns anos, talvez, se escrevesse esse texto hoje talvez pensasse de forma diferente…

  3. Gostei das perspectivas do texto. Concordo, porque apesar dos anos – mesmo que o relacionamento amadureça, mesmo que as pessoas se conheçam cada vez mais – de alguma forma sempre há uma espécie de idealização do outro, do próximo. O fato é: sempre idealizamos de alguma maneira. Não acho que seja negativo, apenas algo que fazemos involuntariamente, afinal, as pessoas sempre têm diferentes opiniões quando estão ”dentro” ou ”fora” de uma relação. Idealizar é quase involuntária, a única coisa que talvez mude seja essa nossa busca de algo que nos falte no outro, provavelmente, com o tempo amar alguém se torna mais amplo e maior do que qualquer ausência que pudéssemos ter tido em algum instante.

  4. Talvez, Nelson. Qualquer dissertação sobre o amor é subjectiva. Todos nós temos uma opinião muito particular sobre o assunto, não é? 🙂 Boa semana! 🙂

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