“Regresso à escola de bicicleta”

É o qu`eu digo...

Um artigo de Joana Ivónia, publicado na página do blogue Ciclaveiro. Para ler e refletir…

“Pouco mais de um mês após o regresso às aulas, as rotinas definem-se e estabilizam-se. Novos horários, novos amigos, novos professores e possivelmente uma nova escola. Porém há hábitos que permanecem bem vincados de ano para ano: o caótico momento da entrega dos pequenos (e alguns já não tão pequenos) junto aos portões das escolas.

Uma rotina diária, um momento de pára onde calha, buzina para se chegar para lá um bocadinho, uma mãe levanta a mão a pedir desculpa ao carro de trás por ter parado no meio da estrada para o momento do beijinho, as crianças passam entre os carros a tentarem chegar em segurança ao passeio, e claro os pais a fazerem tudo para que eles fiquem o mais próximo do portão da escola, não vá um pai distraído arrancar sem olhar para todos os lados.

Para quem vive estes momentos sabe do que falo. Para quem vive nas casas e prédios vizinhos das escolas mesmo que não tenha crianças na escola sabe do que falo. Para quem assiste a esta “evolução” da mobilidade para a escola de há uns anos para cá sabe do que falo.

Estas mesmas pessoas que sabem do que falo, sabem também que na sua infância era diferente. Sabem sim e também o relembram com uma memória nostálgica.

A chegada à escola era diferente, provavelmente nenhum adolescente gostaria que os seus pais o deixassem à porta da escola, os parques de bicicletas nas escolas eram maiores e preenchidos e era muito comum assistirmos ao momento da chegada à escola de grupos de amigos que se iam juntando à medida que se aproximavam do portão de entrada. Também era muito comum terem um percurso pré combinado e apanharem os amigos pelo caminho, à medida que se iam aproximando da escola.

Dados referentes a Lisboa divulgados em 2014 indicam que existe uma relação entre a proximidade das escolas e um maior número de atropelamentos de crianças coincidindo estes mesmos com as horas de entrada e saída das escolas. O estudo refere que “84% dos atropelamentos de crianças ocorreram a 500 metros ou menos de uma escola pública de Lisboa, e 45% ocorreram num raio de 250 metros.”

É também curioso que os pais quando questionados sobre o motivo que os impede de permitir que os seus filhos possam ir sozinhos a pé ou de bicicleta para a escola um dos principais argumentos dados seja o medo do trânsito automóvel. Digo curioso porque de facto nós temos receio e assumimos não concordar com uma prática mas continuamos a praticá-la e a alimentá-la dentro da nossa comunidade.

O que aconteceria amanhã se nenhum dos nossos carros pudesse circular? Certamente que para alguns pais seria difícil, porque moram longe das escolas e trabalham longe de casa (coisa também comum na sociedade de hoje) mas por outro lado certamente que teríamos mais pais e filhos a deslocarem-se para a escola a pé ou a encher os pneus das bicicletas guardadas nas suas garagens. Certamente e no mínimo, a experiência serviria para uma reflexão sobre os nossos hábitos de mobilidade e as alternativas que temos.

É com esta perspectiva que por muito que queiramos mudar hábitos, sensibilizando, com campanhas, conferências, artigos e iniciativas, revelando vantagens e uma premente necessidade de adopção de hábitos de mobilidade mais consciente e sustentável, é necessário medidas restritivas que impulsionem esta mudança para que de facto possa acontecer.

Há um papel fundamental dos pais, mas há necessariamente uma responsabilização das escolas, dos agrupamentos, dos municípios e das entidades de segurança que devem trabalhar articuladamente para que esta mudança se possa iniciar.

O município de Odense, na Dinamarca, destaca-se na alavancagem desta mudança, focando-se em promover alternativas ao carro. O município defende que 90% dos estudantes daquele município podem ir para a escola a pé, de bicicleta ou de skate. É um dos municípios que se orgulha de ter as crianças mais pequenas desde o pré-escolar a chegar à escola nas suas próprias bicicletas. As escolas vão acompanhando esta mudança e em alguns casos comunicam já que o carro não é bem-vindo, proibindo que os pais parem em frente às escolas ou num raio de segurança pré-estabelecido, como o caso da St. Hans School.

Helena Sacadura da Associação Portuguesa de Segurança Infantil (APSI) diz-nos que “não podemos pôr as crianças dentro de redomas. Uma criança que não corre riscos não aprende os riscos que pode correr [mais tarde]. Hoje, temos crianças superprotegidas na área do brincar, não têm autonomia e não são responsáveis. São analfabetos do corpo”.

Não é “apenas” uma questão de promoção de mobilidade sustentável, é necessário reflectir sobre a razão desta urgente necessidade. Que cidade e comunidade estamos a construir?  Que adultos queremos ter? Que qualidade de vida desejamos? Que autonomia estamos a dar às nossa crianças e que possibilidades lhes damos para conhecerem a sua cidade?

Joana Ivónia

(Artigo originalmente publicado no Diário de Aveiro de 03/11/2016)

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