DE TANTO OLHAR O SOL

Poesia à Segunda
De tanto olhar o sol, 
queimei os olhos,
De tanto amar a vida enlouqueci. 
Agora sou no mundo esta negrura. 
À procura 
Da luz e do juízo que perdi.

Miguel Torga

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Poema da segunda-feira

Poesia à Segunda
Seria triste o poema que emana
Ou cheio de animação
Por começar outra semana

Seria chuvoso, frio ou cinzento
Ou alegre e cheio de graça
Pra jogar para longe o desalento

Seria tímido ou malicioso
Cheio de rimas ou sem métrica
Ou seria um poema dengoso

Seria um poema belo
Como nosso Grande Otelo
Ou simplesmente poema singelo

Poema de segunda-feira
Mas não um poema de “segunda”
Pois se há poesia, poesia nele abunda!

José Benício

Difícil ser Funcionário

Poesia à Segunda

Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar…
Fazer seu nojo meu…

João Cabral de Melo Neto

Sabedoria

Poesia à Segunda

Desde que tudo me cansa, 
Comecei eu a viver. 
Comecei a viver sem esperança… 
E venha a morte quando 
Deus quiser. 

Dantes, ou muito ou pouco, 
Sempre esperara: 
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco 
Voava das estrelas à mais rara; 
Outras, tão pouco, 
Que ninguém mais com tal se conformara. 

Hoje, é que nada espero. 
Para quê, esperar? 
Sei que já nada é meu senão se o não tiver; 
Se quero, é só enquanto apenas quero; 
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar. . . 
E venha a morte quando Deus quiser. 

Mas, com isto, que têm as estrelas? 
Continuam brilhando, altas e belas. 

José Régio, in ‘Poemas de Deus e do Diabo’ 

Quando

Poesia à Segunda

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.

Sophia de Mello Breyner

Regresso ao Lar

Poesia à Segunda

Ai, há quantos anos que eu parti chorando 
deste meu saudoso, carinhoso lar!… 
Foi há vinte?… Há trinta?… Nem eu sei já quando!… 
Minha velha ama, que me estás fitando, 
canta-me cantigas para me eu lembrar!… 

Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida… 
Só achei enganos, decepções, pesar… 
Oh, a ingénua alma tão desiludida!… 
Minha velha ama, com a voz dorida. 
canta-me cantigas de me adormentar!… 

Trago de amargura o coração desfeito… 
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar! 
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!… 
Minha velha ama, que me deste o peito, 
canta-me cantigas para me embalar!… 

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho 
pedrarias de astros, gemas de luar… 
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!… 
Minha velha ama, sou um pobrezinho… 
Canta-me cantigas de fazer chorar!… 

Como antigamente, no regaço amado 
(Venho morto, morto!…), deixa-me deitar! 
Ai o teu menino como está mudado! 
Minha velha ama, como está mudado! 
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!… 

Canta-me cantigas manso, muito manso… 
tristes, muito tristes, como à noite o mar… 
Canta-me cantigas para ver se alcanço 
que a minha alma durma, tenha paz, descanso, 
quando a morte, em breve, ma vier buscar! 

Guerra Junqueiro, in ‘Os Simples’ 

Contra a Morte e o Amor não Há Quem Tenha Valia

Poesia à Segunda

Era ainda o mês de abril, 
de maio antes um dia, 
quando lírios e rosas 
mostram mais sua alegria; 
pela noite mais serena 
que fazer o céu podia, 
quando Flérida, a formosa 
infanta, já se partia, 
ela na horta do pai 
para as árvores dizia: 
“Ficai, adeus, minhas flores, 
em que glória ver soía. 
Vou-me a terras estrangeiras, 
a que ventura me guia. 
Se meu pai me for buscar, 
que grande bem me queria, 
digam-lhe que amor me leva, 
e que eu sem culpa o seguia; 
que tanto por mim porfiava 
que venceu sua porfia. 
Triste, não sei aonde vou, 
e a mim ninguém o dizia!” 
Eis que fala Dom Duardos: 
“Não choreis, minha alegria, 
que nos reinos de Inglaterra 
mais claras águas havia, 
e mais formosos jardins, 
e vossos, senhora, um dia: 
tereis trezentas donzelas 
de alta genealogia, 
de prata são os palácios 
para vossa senhoria; 
de esmeraldas e jacintos, 
de ouro fino da Turquia, 
com letreiros esmaltados 
que minha vida à porfia 
vão contando, e as vivas cores 
que vós me destes no dia 
em que com Primaleão 
fortemente combatia: 
senhora, vós me matastes, 
que eu a ele não temia.” 
Os seus prantos consolava 
Flérida, que tudo ouvia; 
foram-se então às galeras 
que Dom Duardos havia: 
por cinqüenta se contavam, 
todas vão em companhia. 
Ao som de seus doces remos 
a princesa se adormia 
nos braços de Dom Duardos, 
que bem já lhe pertencia. 
Saibam quantos são nascidos 
que sentença eu lhes diria: 
que contra a morte e o amor 
não há quem tenha valia. 

Gil Vicente, in ‘Antologia Poética’