O Espelho

Poesia à Segunda

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

No livro “Idades Cidades Divindades”

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Troco-me por Ti

Poesia à Segunda

Troco-me por ti 
Na brasa da fogueira mal ardida 
renovo o fogo que perdi, 
acendo, ascendo, ao lume, ao leme, à vida. 

E só trocado, parece, por não ser 
na verdade conjugo o velho verbo 
e sou, remido esquartejado, 
o retrato perfeito em que exacerbo 
os passos recolhidos pelo tempo andado. 

Pedro Tamen, in “Rua de Nenhures” 

A palavra na berlinda

Poesia à Segunda, Uncategorized

As palavras se contaminam
de cada um de nós.
Bebem nosso único sangue.
Engravidam das vivências
de específicos destinos.
Quando alçadas em abstrações
prévias estagiaram no cerne
de nossa própria carne.
Por isso descaminhos se traçam
e se cavam abismos e abismos
entre bocas e ouvidos.
O que se expressa e vigora
em aparente senha comum
não cintila a sua aura
e de nós o essencial ignora.

Astrid Cabral, em “Palavra na berlinda”

E correram os rios

Poesia à Segunda, the way

Correram como rios as palavras

altas e soltas correram os rios na gente

rios de lava Lisboa inflamada acorrendo fremente

nos dias eu se abriram vinda das faldas vertida

dos dormitórios da cintura fumegante e mecanizada

Lisboa livre acorreu

enxameadas as veias avenida da liberdade

rossio terreiro do paço Belém

– e além na outra banda absurdo o cristo:

braços em cruz impotente –

e correndo os rios cada vez mais latos

até o súbito despedaçar-se da seda contra a amurada

afundadas as olheiras da vigília entornadas

as falas em busca do nexo – e achámos esta sorte

o sangue agitado o tempo:

uníssono o nosso grito

escancarado em cada rua

em passo de estar alerta

uníssono ressoou porém mais fundo.

E assim nos pergunto que águas nos lavaram tão de dentro

e levaram alamedas da liberdade acima

que rios tão feitos de luta e punhos? alegria?

Wanda Ramos

POEMAS DA CIÊNCIA DE VOAR

Poesia à Segunda

Uma mão relampeja na casa da escrita.
Faísca Troveja.
Procura um claro instante para a aparição.

Pode-se vê-la correr pelo dorso do papel,
deitada do seu lado ou do seu modo rastejante,
pode-se vê-la provando o ruminante delírio das palavras,
a sua rasante arrumação,
e leva vozes aquela mão em cada delicada passagem,
rítmica, latejante
ou um nervo animal que faz lembrar
a textura pedestre do papel.
Mas a mão voa, explosiva,
e não cai nem agoniza no espaço vibrante onde se comunica.

Voar é um fervoroso recolhimento.
E no que é quase a medida elementar do esquecimento
a escrita navega
num estuário de silêncio.
Escrever é uma droga antiga,
uma bebedeira que queima com lentidão
a cabeça,
traz as luzes desde as vísceras,
o sangue a ferver nas vias tubulantes,
traz a natureza estimulante das paisagens
que temos dentro.”

Ocorre-me agora
a pupila minúscula de uma criança.
A sua engenharia
desde o corpo na guerreira pequenez
ao dedo provador da boca.
Ocorre-me esta criança
este monge da franqueza em seu templo de inocência.
Amo-a. Vivo-a.

Voar é poder amar uma criança.
Sonhar-lhe o peso no colo, as mãos acariciantes
sobre a palma da alma.

Voar é tardar a boca
na rosa do rosto de uma criança.
Pronunciar-lhe a ternura,
a seda fresca e pura
da sua infância.

Voar é adormecer o homem
na mão sonhadora
de uma criança.

Eduardo White