Caminho a Finisterra & Muxia

Santiago de Compostela – Negreira – 25 km

Há um ano atrás, aquando da minha primeira experiência pelos caminhos de Santiago escrevi isto “Depois de longos meses de espera, de muita coisa lida e ouvida sobre o caminho, a expectativa estava ao rubro no dia do arranque da grande caminhada e nem o dia negro e a chuva intensa abalaram o meu entusiasmo. Não era o tempo que imaginei… mas funcionou como uma espécie de bênção para o que havia de vir.

12 meses volvidos a história repete-se!!!

Este primeiro dia apresenta uma etapa curta (25 km +/-) com um grande ascendente e sucessivas subidas e descidas não muito acentuadas que mais parecem uma montanha russa, o percurso inicia-se junto do Hotel dos Reis, mais precisamente na Rua das Hortas.

Apesar dos prognósticos de chuva forte, tive um dia bem tranquilo, com chuva, mas sempre fraca.

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Daqui vamos em direcção a “Carballeira”, um frondoso souto de carvalhos centenários, foi aqui que no início do século XIII se fundou o convento de S. Lorenzo de Trasouto. Daí descemos até alcançarmos a Ponte de Sarela, onde se inicia uma subida ligeira até Sarela de Baixo, de onde podemos apreciar uma vista fantástica das torres da Catedral de Santiago.

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Por bosques mais ou menos interessantes, mas sempre verdejantes, subimos até ao alto de Mar de Ovellas, um ascendente de respeito capaz de nos tirar o fôlego durante os dois quilómetros da subida. Ao chegarmos ao cimo podemos encontrar uma fonte que nos possibilita refrescar nos dias mais quentes, que não era o caso, e de seguida iniciamos a descida ao vale do rio Tambre.

Chegados a Ponte Maceira podemos observar um bonito quadro natural embelezado, mais ainda, pela Ponte de cinco arcos (construída em finais do séc XIV e de grande importância nas comunicações entre as gentes de Finisterra e Santiago), pelos moinhos e por uma pequena cascata.

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Por um percurso predominantemente rural rápido chegamos a Negreira… o tempo chuvoso não convidava à visita ao único ponto digno de interesse na cidade, o edifício medieval de Pazo Cóton, até porque, a visita ao mesmo só pode ser feita pelo exterior!

Negreira – Olveiroa – 34 Km

Em Negreira pernoitei no Albergue Lua, não é grande espiga (!), está mal cuidado, ou melhor, está cuidado ao estilo desleixado!!! Certamente qualquer outro será bastante melhor.

Aqui conheci um brasileiro, Ezequiel, que já vinha a caminhar desde Jean Pied de Port (Caminho Francês) e que se prepara para viver uma experiência tão única como o próprio caminho… uma volta ao mundo, durante 18 meses!!! Podem acompanhar a sua aventura juntamente com sua esposa aqui e aqui.

Depois de uma noite de chuva intensa, a manhã apresentou ligeiras melhoras, evitando ter de tirar o bote da mochila, no entanto, a capa de chuva foi uma peça obrigatória.

Logo na saída da povoação encontramos o já falado Pazo Coton… muito bonito o edifício e a envolvente de onde destaco uma escultura que homenageia os emigrantes galegos.

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Esta etapa é extensa, com cerca de 35 km, desenvolve-se ao longo de uma paisagem predominantemente rural, com desníveis suaves, mas frequentes… ter atenção que depois de Negreira só encontramos um café em A Pena, a cerca de 8,5 Km do início.

Toda a etapa é bonita onde a paisagem verdejante tem o papel principal e cujo o caminho vai alternando entre o alcatrão e a terra… aqui e ali a vista é preenchida com pequenas manadas de vacas e o olfacto preenchido com o seu odor característico a bosta! Os espigueiros são também uma constante neste percurso havendo alguns muito bem conservados como os existentes nas proximidades de Maroñas.

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Nesta etapa deu para perceber que o caminho vinha com muitos turisgrinos (peregrinos sem mochila, com apoio logístico) o que levou à lotação do albergue que hoje elegi para pernoitar, sem que isso influenciasse a calma e a tranquilidade do espaço, no entanto, condicionou a vida a muitos que vinham de mochila às costas e se viram obrigados a continuar o seu caminho por falta de cama.

Olveiroa – Finisterra – 34 km + 6 km (ida e volta ao farol)

As previsões da meteorologia eram de chuva forte para o dia desta etapa e esses prognósticos concretizaram-se para mal dos meus pecados!!!

O dia arrancou no restaurante do albergue com um pequeno almoço à moda da Galiza e com as compras de mantimentos para o dia de caminhada.

Pouco depois da saída tivemos de contornar o primeiro obstáculo, devido às fortes chuvas o ribeiro local transbordou o que obrigou a seguir pela estrada cerca de 500 metros, voltando a entrar no percurso um pouco mais a diante… apesar de por esta altura já estar ensopado até aos ossos não consegui evitar um sorriso vendo um companheiro coreano completamente petrificado a olhar para o ribeiro, quem sabe, à espera que a água parasse de correr! Moisés teria resolvido o nosso problema.

Este trajecto que nos levaria a CEE ainda guardava algumas surpresas, como a “piscina olímpica” que tivemos de atravessar, já que não caminhamos sobre as águas. Água fresquinha, pelos tornozelos… nem valeu a pena tirar as sapatilhas!

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Numa encosta completamente exposta, fomos presa fácil ao vento e à chuva… por caminhos mais ou menos sinuosos chegamos a Hospital, o nome desta povoação tem origem num antigo hospital de peregrinos que existiu no séc XII. É também aqui que podemos fazer a opção de seguir pelo caminho que nos leva a Finisterra, ou então, na direcção oposta, até Muxia. Nós optamos por seguir a Fisterre.

Também em Hospital temos um café, o último, nos próximos 15 km (!), este percurso foram os piores quilómetros de todos que fiz no caminho se Santiago… o tempo quase não permitiu tirar os olhos do chão, mas quando tirava pouco via, uma vez que o nevoeiro cerrado apenas permitia ver, no máximo, a 50 metros, a chuva era intensa e o vento, de frente, com rajadas fortes, provocava um grande desgaste, aliado a tudo isto o terreno tem bastante pedra solta e encontrava-se ensopado o que agravava o desgaste físico e mental.

No final deste percurso encontramos uma descida íngreme até CEE. A povoação de CEE é uma das mais antigas da Galiza e daqui seguimos até Curcubión.

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Na história do caminho, sempre se caminhou de Olveiroa a Finisterra, mas nos dias que correm, com mais opções de alojamento, pernoitar em Corcubión é uma opção válida, deixando cerca de 15 km para o dia seguinte.

Nós continuamos, debaixo do mesmo temporal e o que poderia ser um passeio triunfal até Finisterra foi mais uma luta mente vs corpo para terminar a etapa, valeram as injecções de motivação vindas da paisagem com quadros como este que se segue.

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Apesar de tudo destaco o passeio marítimo, de quase três quilometros, junto à praia da Langosteira… num dia solarengo deve ser bastante prazeroso.

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Neste dia, as péssimas condições atmosféricas e a consequente falta de visibilidade mais o cansaço extremo adiaram a ida ao Farol de Finisterra para o dia seguinte. A desmotivação era tal que considerei, depois da subida ao farol, no dia seguinte, rumar de camioneta a Muxia.

Mas nem tudo foi mau neste dia, o albergue era bem engraçado e estava quase por nossa conta.

Finisterra – Muxia – 32 Km

Acordar para o mundo… olhar pela janela e contemplar mais nuvens negras! Considerei que para ter mais um dia difícil não valeria a pena… seguiria até Muxia de camioneta.

Mas antes, subiria ao farol, ao quilómetro Zero. Mochila às costas lá seguimos para um percurso de 6 km, ida e volta, por estrada, numa calma oferecida pela manhã de domingo e pela ausência de tráfego, o silêncio apenas era rasgado pelo som das ondas da costa da morte.

Depois de tantos quilómetros, não vi o pôr do sol, mas imaginei-o e ele era assim… (não tenho muito jeito para o desenho, mas até não ficou mal!)

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O que se vai passar a seguir é da inteira responsabilidade de um peregrino italiano com quem falei no primeiro dia… talvez aquele encontro e aquela conversa não tenha acontecido por acaso, talvez fosse um desígnio do Caminho.

Como havia dito, o meu propósito era rumar a Muxia de transporte, mas, enquanto preparava a máquina fotográfica para um registo, encontrei uma foto que tirei do tablet desse peregrino, uma frase que ele encontrou no seu caminho e decidiu registar em foto… dizia algo do género.

” A dor e o sofrimento são temporários, desistir é para sempre”

Estas palavras bastaram para mudar o meu sentido… só haveria de parar em Muxia, pelos meus pés, na etapa mais longa, 40 Km menos 200 metros.

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O caminho até Muxia, localidade que tem na pesca e no artesanato de renda as suas atividades mais características, faz-se por entre campos de cultivo, pequenas aldeias, bosques e praias. Para lá chegar há que vencer a subida ao alto de As Aferroas, de onde se tem uma vista privilegiada sobre o mundo.

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Antes de atingir o centro de Muxia e após a descida do alto de As Aferroas por entre caminhos rurais, somos presenteados com esta visão, daqui até ao albergue foi um “instante”.

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Depois de um dia solarengo, que prometia um pôr de sol fantástico, o céu volta a cobrir-se de nuvens e chegados ao albergue (o melhor de todo o caminho), mais mortos que vivos, eu parecia ser o único a querer ir ver a despedida do astro rei! Eu sei que tudo indicava que era mais certo apanhar um banho valente, mas tive esperança e insisti para que fossemos.

Percorrendo a orla do Monte Corpiño, pelo “Caminho da Pele”, assim chamado por em tempos existir no local uma fonte onde os peregrinos se banhavam, como símbolo de respeito e purificação, também nós alcançamos  o Santuários da Virgem da Barca, que conta a lenda foi o local onde a Virgem arribou num barco de pedra para dar ânimo ao Apóstolo Santiago enquanto este percorria estas terras.

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Este momento valeu todo o esforço do caminho… de frente a mim, um pôr do sol fantástico, nas minhas costas, à minha esquerda, a chuva a cair ao fundo criando um tímido arco-íris e à minha direita, acordando para a vida, uma imensa lua cheia.

Serei dos poucos que não conseguiu ver o pôr-do-sol em Finisterra e serei dos poucos, também, que em Muxia teve o privilégio de assistir a algo do género.

E assim terminou esta aventura… não o caminho… pois o caminho nunca acaba.

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4 thoughts on “Caminho a Finisterra & Muxia

  1. adorei o relato da sua aventura, bem haja! Será o meu caminho na primavera próxima 🙂 até já, peregrino

  2. Obrigado Margarida… um belo percurso e se o tempo ajudar ainda mais belo certamente. No regresso passe por cá e deixe o seu testemunho.
    Bom caminho

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