Cantiga de Malazarte

Poesia à Segunda

Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
Nada me fixa nos caminhos do mundo.

Murilo Mendes

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É por Ti que Escrevo

Poesia à Segunda

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa 
mas a mulher do meu horizonte 
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia 
Por ti desejo o sossego oval 
em que possas identificar-te na limpidez de um centro 
em que a felicidade se revele como um jardim branco 
onde reconheças a dália da tua identidade azul 
É porque amo a cálida formosura do teu torso 
a latitude pura da tua fronte 
o teu olhar de água iluminada 
o teu sorriso solar 
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte 
nem a túmida integridade do trigo 
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis 
para a oferenda do meu sangue inquieto 
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol 
que quer resplandecer em largas planícies 
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso 

António Ramos Rosa, in ‘O Teu Rosto’ 

Terra dos Meus Amores

Poesia à Segunda

Terra dos meus amores

Ó terra da minha dor

Chora o vento na tua voz

O mar ameaça nos teus gestos

 

No fundo dos séculos sobe o rumor

De idade concreta – 500 anos

Do fundo dos séculos chora o vento

Na voz da terra – meu amor

 

O mar ameaça nos teus gestos

Ó terra da minha dor

Bloqueio mordaça bloqueio

Terra dos meus amores

 

Soluça o vento na tua voz

Ameaça o mar nos teus gestos

Bloqueio mordaça bloqueio

Na tua face de rompido espanto

 

Agora a luta ontem o desespero e dantes as lágrimas

Ó terra da mina dor

Estrela salgada de 10 braços

E em cada braço mil esperanças

Ovídio Martins

Vou de Suspiros Todo este Ar Enchendo

Poesia à Segunda

Vou de suspiros todo est’ ar enchendo, 
vou a terra de lágrimas regando, 
mais água aos rios, mais às fontes dando, 
e com meu fogo em tudo fogo acendo. 

E quando os olhos meus, senhora, estendo 
para onde o Amor e vós m’estais chamando, 
as altas serras em qu’ os vou quebrando 
da vista me tolher s’ estão doendo. 

Mas nisto acode Amor, que sempre voa; 
eu pelas asas, eu pelo arco o tenho, 
té me levar consigo onde desejo. 

E jurarei, senhora, que vos vejo, 
jurarei qu’ essa doce voz me soa. 
Nesta imaginação só me sostenho. 

António Ferreira, in ‘Poemas Lusitanos’ 

Seus Olhos

Poesia à Segunda

Seus olhos – que eu sei pintar 
O que os meus olhos cegou – 
Não tinham luz de brilhar, 
Era chama de queimar; 
E o fogo que a ateou 
Vivaz, eterno, divino, 
Como facho do Destino. 

Divino, eterno! – e suave 
Ao mesmo tempo: mas grave 
E de tão fatal poder, 
Que, um só momento que a vi, 
Queimar toda a alma senti… 
Nem ficou mais de meu ser, 
Senão a cinza em que ardi. 

Almeida Garrett, in ‘Folhas Caídas’ 

Seria o Amor Português

Poesia à Segunda

Muitas vezes te esperei, perdi a conta, 
longas manhãs te esperei tremendo 
no patamar dos olhos. Que me importa 
que batam à porta, façam chegar 
jornais, ou cartas, de amizade um pouco 
— tanto pó sobre os móveis tua ausência. 

Se não és tu, que me pode importar? 
Alguém bate, insiste através da madeira, 
que me importa que batam à porta, 
a solidão é uma espinha 
insidiosamente alojada na garganta. 
Um pássaro morto no jardim com neve. 

Nada me importa; mas tu enfim me importas. 
Importa, por exemplo, no sedoso 
cabelo poisar estes lábios aflitos. 
Por exemplo: destruir o silêncio. 
Abrir certas eclusas, chover em certos campos. 
Importa saber da importância 
que há na simplicidade final do amor. 
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo. 
«Que me importa que batam à porta…» 
Sair de trás da própria porta, buscar 
no amor a reconciliação com o mundo. 

Longas manhãs te esperei, perdi a conta. 
Ainda bem que esperei longas manhãs 
e lhes perdi a conta, pois é como se 
no dia em que eu abrir a porta 
do teu amor tudo seja novo, 
um homem uma mulher juntos pelas formosas 
inexplicáveis circunstâncias da vida. 

Que me importa, agora que me importas, 
que batam, se não és tu, à porta? 

Fernando Assis Pacheco, in “A Musa Irregular”