Feliz Dia para Quem É

Poesia à Segunda

Feliz dia para quem é 
O igual do dia, 
E no exterior azul que vê 
Simples confia! 

Azul do céu faz pena a quem 
Não pode ser 
Na alma um azul do céu também 
Com que viver 

Ah, e se o verde com que estão 
Os montes quedos 
Pudesse haver no coração 
E em seus segredos! 

Mas vejo quem devia estar 
Igual do dia 
Insciente e sem querer passar. 
Ah, a ironia 

De só sentir a terra e o céu 
Tão belo ser 
Quem de si sente que perdeu 
A alma p’ra os ter! 

Fernando Pessoa, in “Cancioneiro” 

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Ninguém Meu Amor

Poesia à Segunda

Ninguém meu amor 
ninguém como nós conhece o sol 
Podem utilizá-lo nos espelhos 
apagar com ele 
os barcos de papel dos nossos lagos 
podem obrigá-lo a parar 
à entrada das casas mais baixas 
podem ainda fazer 
com que a noite gravite 
hoje do mesmo lado 
Mas ninguém meu amor 
ninguém como nós conhece o sol 
Até que o sol degole 
o horizonte em que um a um 
nos deitam 
vendando-nos os olhos 

Sebastião Alba, in ‘A Noite Dividida’

TIMIDEZ

Poesia à Segunda

O bicho-de-conta 
Faz de conta, faz 
Que é cabeça tonta 
Mas lá bem no fundo 
Não é mau rapaz. 

Se a gente lhe toca, 
Logo se disfarça: 
Veste-se de bola. 
Por mais que se faça 
Não se desenrola. 

Lá dentro escondendo 
Patinhas e rosto 
É todo um segredo: 
Se eu fosse menino 
Comigo brincava 
Sem medo, sem medo. 

Maria Alberta Menéres, 
Conversas com Versos, 2005

Ecce Homo

Poesia à Segunda

Desbaratamos deuses, procurando 
Um que nos satisfaça ou justifique. 
Desbaratamos esperança, imaginando 
Uma causa maior que nos explique. 

Pensando nos secamos e perdemos 
Esta força selvagem e secreta, 
Esta semente agreste que trazemos 
E gera heróis e homens e poetas. 

Pois deuses somos nós. Deuses do fogo 
Malhando-nos a carne, até que em brasa 
Nossos sexos furiosos se confundam, 

Nossos corpos pensantes se entrelacem 
E sangue, raiva, desespero ou asa, 
Os filhos que tivermos forem nossos. 

Ary dos Santos, in ‘Liturgia do Sangue’ 

O Tempo Vive

Poesia à Segunda

O tempo vive, quando os homens, nele, 
se esquecem de si mesmos, 
ficando, embora, a contemplar o estreme 
reduto de estar sendo. 
O tempo vive a refrescar a sede 
dos animais e do vento, 
quando a estrutura estremece 
a dura escuridão que, desde dentro, 
irrompe. E fica com o uivo agreste 
espantando o seu estrondo de silêncio. 

Fernando Echevarría, in “Sobre os Mortos” 

Um Calculador de Improbabilidades

Poesia à Segunda

O poeta é 
um calculador de improbabilidades limita 
a informação quantitativa fornecendo 
reforçada informação estésica. 
É uma máquina eta-erótica em que as discrepâncias 
são a fulgurância da máquina. 
A crueldade elegante da máquina resulta da 
competição pirotécnica da circulação íntima 
e fulgurante do seu maquinismo erótico. 
A psicologia do maquinal sabe que basta 
que se crie um pólo positivo para que o pólo 
negativo surja 
ou vice-versa 
e as evoluções telecinéticas pela força 
das catástrofes desenvolvem suas faculdades 
latentes ou absorvem-nas como a esponja absorve 
as águas variáveis dos humores 
que transforma em polaridade. 
O maquinal eta-erótico está em astrogação 
curso hipnótico dos polímeros. 
Digo com precisão fenomenológica: o maquinal 
circula em sua hiperesfera da maneira mais 
excêntrica. 
Digo e garanto: 
o maquinal absolutamente absorve suas águas 
variáveis e isso é o seu amplexo. 
O maquinal eta-erótico é tu-eu. 
O maquinal tu-eu 
cuja tarefa árdua não é 
definir a verdade está no meio da profusão 
dos objectos 
e considera o consumo a verdade deslocada 
deslocação de grande tonelagem 
laboriosa alfaiataria de eros 
constante moribunda 
e esse opróbrio dispersivo e vexável 
indifere a vida esponjosa. 
A história agrega a dificuldade essencial 
das variáveis e o ensejo das coisas 
prática difícil 
está para o maquinal como uma indústria apócrifa 

Ana Hatherly, in “Um Calculador de Improbabilidades”