É por Ti que Escrevo

Poesia à Segunda

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa 
mas a mulher do meu horizonte 
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia 
Por ti desejo o sossego oval 
em que possas identificar-te na limpidez de um centro 
em que a felicidade se revele como um jardim branco 
onde reconheças a dália da tua identidade azul 
É porque amo a cálida formosura do teu torso 
a latitude pura da tua fronte 
o teu olhar de água iluminada 
o teu sorriso solar 
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte 
nem a túmida integridade do trigo 
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis 
para a oferenda do meu sangue inquieto 
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol 
que quer resplandecer em largas planícies 
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso 

António Ramos Rosa, in ‘O Teu Rosto’ 

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Vou de Suspiros Todo este Ar Enchendo

Poesia à Segunda

Vou de suspiros todo est’ ar enchendo, 
vou a terra de lágrimas regando, 
mais água aos rios, mais às fontes dando, 
e com meu fogo em tudo fogo acendo. 

E quando os olhos meus, senhora, estendo 
para onde o Amor e vós m’estais chamando, 
as altas serras em qu’ os vou quebrando 
da vista me tolher s’ estão doendo. 

Mas nisto acode Amor, que sempre voa; 
eu pelas asas, eu pelo arco o tenho, 
té me levar consigo onde desejo. 

E jurarei, senhora, que vos vejo, 
jurarei qu’ essa doce voz me soa. 
Nesta imaginação só me sostenho. 

António Ferreira, in ‘Poemas Lusitanos’ 

Seus Olhos

Poesia à Segunda

Seus olhos – que eu sei pintar 
O que os meus olhos cegou – 
Não tinham luz de brilhar, 
Era chama de queimar; 
E o fogo que a ateou 
Vivaz, eterno, divino, 
Como facho do Destino. 

Divino, eterno! – e suave 
Ao mesmo tempo: mas grave 
E de tão fatal poder, 
Que, um só momento que a vi, 
Queimar toda a alma senti… 
Nem ficou mais de meu ser, 
Senão a cinza em que ardi. 

Almeida Garrett, in ‘Folhas Caídas’ 

Sobre um Poema

Poesia à Segunda

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder

Pequena Elegia de Setembro

Poesia à Segunda

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
Dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade, in ‘Antologia Poética’

Cromo

Poesia à Segunda

andamos pelo mundo 
experimentando a morte 
dos brancos cabelos das palavras 
atravessamos a vida com o nome do medo 
e o consolo dalgum vinho que nos sustém 
a urgência de escrever 
não se sabe para quem 

o fogo a seiva das plantas eivada de astros 
a vida policopiada e distribuída assim 
através da língua… gratuitamente 
o amargo sabor deste país contaminado 
as manchas de tinta na boca ferida dos tigres de papel 

enquanto durmo à velocidade dos pipelines 
esboço cromos para uma colecção de sonhos lunares 
e ao acordar… a incoerente cidade odeia 
quem deveria amar 

o tempo escoa-se na música silente deste mar 
ah meu amigo… como invejo essa tarde de fogo 
em que apetecia morrer e voltar 

Al Berto, in ‘Salsugem’