Ecce Homo

Poesia à Segunda

Desbaratamos deuses, procurando 
Um que nos satisfaça ou justifique. 
Desbaratamos esperança, imaginando 
Uma causa maior que nos explique. 

Pensando nos secamos e perdemos 
Esta força selvagem e secreta, 
Esta semente agreste que trazemos 
E gera heróis e homens e poetas. 

Pois deuses somos nós. Deuses do fogo 
Malhando-nos a carne, até que em brasa 
Nossos sexos furiosos se confundam, 

Nossos corpos pensantes se entrelacem 
E sangue, raiva, desespero ou asa, 
Os filhos que tivermos forem nossos. 

Ary dos Santos, in ‘Liturgia do Sangue’ 

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O Tempo Vive

Poesia à Segunda

O tempo vive, quando os homens, nele, 
se esquecem de si mesmos, 
ficando, embora, a contemplar o estreme 
reduto de estar sendo. 
O tempo vive a refrescar a sede 
dos animais e do vento, 
quando a estrutura estremece 
a dura escuridão que, desde dentro, 
irrompe. E fica com o uivo agreste 
espantando o seu estrondo de silêncio. 

Fernando Echevarría, in “Sobre os Mortos” 

Um Calculador de Improbabilidades

Poesia à Segunda

O poeta é 
um calculador de improbabilidades limita 
a informação quantitativa fornecendo 
reforçada informação estésica. 
É uma máquina eta-erótica em que as discrepâncias 
são a fulgurância da máquina. 
A crueldade elegante da máquina resulta da 
competição pirotécnica da circulação íntima 
e fulgurante do seu maquinismo erótico. 
A psicologia do maquinal sabe que basta 
que se crie um pólo positivo para que o pólo 
negativo surja 
ou vice-versa 
e as evoluções telecinéticas pela força 
das catástrofes desenvolvem suas faculdades 
latentes ou absorvem-nas como a esponja absorve 
as águas variáveis dos humores 
que transforma em polaridade. 
O maquinal eta-erótico está em astrogação 
curso hipnótico dos polímeros. 
Digo com precisão fenomenológica: o maquinal 
circula em sua hiperesfera da maneira mais 
excêntrica. 
Digo e garanto: 
o maquinal absolutamente absorve suas águas 
variáveis e isso é o seu amplexo. 
O maquinal eta-erótico é tu-eu. 
O maquinal tu-eu 
cuja tarefa árdua não é 
definir a verdade está no meio da profusão 
dos objectos 
e considera o consumo a verdade deslocada 
deslocação de grande tonelagem 
laboriosa alfaiataria de eros 
constante moribunda 
e esse opróbrio dispersivo e vexável 
indifere a vida esponjosa. 
A história agrega a dificuldade essencial 
das variáveis e o ensejo das coisas 
prática difícil 
está para o maquinal como uma indústria apócrifa 

Ana Hatherly, in “Um Calculador de Improbabilidades” 

É por Ti que Escrevo

Poesia à Segunda

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa 
mas a mulher do meu horizonte 
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia 
Por ti desejo o sossego oval 
em que possas identificar-te na limpidez de um centro 
em que a felicidade se revele como um jardim branco 
onde reconheças a dália da tua identidade azul 
É porque amo a cálida formosura do teu torso 
a latitude pura da tua fronte 
o teu olhar de água iluminada 
o teu sorriso solar 
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte 
nem a túmida integridade do trigo 
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis 
para a oferenda do meu sangue inquieto 
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol 
que quer resplandecer em largas planícies 
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso 

António Ramos Rosa, in ‘O Teu Rosto’ 

Vou de Suspiros Todo este Ar Enchendo

Poesia à Segunda

Vou de suspiros todo est’ ar enchendo, 
vou a terra de lágrimas regando, 
mais água aos rios, mais às fontes dando, 
e com meu fogo em tudo fogo acendo. 

E quando os olhos meus, senhora, estendo 
para onde o Amor e vós m’estais chamando, 
as altas serras em qu’ os vou quebrando 
da vista me tolher s’ estão doendo. 

Mas nisto acode Amor, que sempre voa; 
eu pelas asas, eu pelo arco o tenho, 
té me levar consigo onde desejo. 

E jurarei, senhora, que vos vejo, 
jurarei qu’ essa doce voz me soa. 
Nesta imaginação só me sostenho. 

António Ferreira, in ‘Poemas Lusitanos’ 

Seus Olhos

Poesia à Segunda

Seus olhos – que eu sei pintar 
O que os meus olhos cegou – 
Não tinham luz de brilhar, 
Era chama de queimar; 
E o fogo que a ateou 
Vivaz, eterno, divino, 
Como facho do Destino. 

Divino, eterno! – e suave 
Ao mesmo tempo: mas grave 
E de tão fatal poder, 
Que, um só momento que a vi, 
Queimar toda a alma senti… 
Nem ficou mais de meu ser, 
Senão a cinza em que ardi. 

Almeida Garrett, in ‘Folhas Caídas’